Contos

Os anos de chumbo

Fui adolescente nos anos de chumbo. Eu não sabia do que acontecia no Brasil, tudo era escondido como se fosse vergonhoso. Nosso comportamento também era controlado, tudo em nome da moral e dos bons costumes.

Fui expulso do seminário, perdi a fé, depois descobri que meus novos amigos também não tinham fé. Mas a minha falta de fé não era pacífica.

Por algum tempo, muito pouco, dormi num pequeno quarto, quase uma despensa. Eu rolava, rolava sem parar, estatelava-me no chão e, exausto, fungava, fungava. Os olhos nas paredes, armários, no teto, sobretudo no teto, suas frases escritas a giz.

“É proibido proibir.”

“Apareça lá em casa, viu?!”

“Pois é, falaram tanto.”

“Make warm not love.”

“Dê um chute no patrão.”

“Adivinha quem vem para o jantar!”

Algumas frases com a indicação da autoria:

“E vendo o barco se afastar de Amaralina desesperadamente linda e soluçando lentamente.” (Caetano Veloso).

“O amor move o sol e as estrelas.” (Dante)

“É preciso respeitar o homem… não ter piedade dele.” (Gorki)

“Pierrot le fou… lindo!”

“Estavas tão linda assim no dia dos quarenta e três pores-do-sol!

“Vivemos na melhor cidade da América do Sul.”

“Vamos passear na floresta escondida, meu amor.” “É superbacana.” “São Paulo mon amour.”

“Yes, nós temos” e o desenho de duas bananas.

E tudo isso eram coisas. Faltaria uma frase de Gorki? “Ninguém deve ser condenado por coisa alguma porque somos todos iguais: bichos.” Bichos? Então não éramos coisas? E um bicho é algo mais? Em alguma parte do mundo, uma criança, em alguma parte do meu coração, chorando. Silêncio em mim. Quem seria eu? Ninguém?

Urra! Abre os olhos, abre os olhos, bicho! Oscilações, confiança, extremos. Sangue, dor, angústia. A criança chorando, em alguma parte, sem o pequeníssimo barulho enorme da gota de remédio caindo da invisível colher. Cusparada na face do destino.

Mas o destino tem face? Mas existe destino?

“…estendes os braços perfumados de giestas pedindo tempo quando não há tempo.” (Dalton Trevisan)

Meus amigos, não há amigos. Eu sentia a precisão de uma companheira.

Silêncio. Mas o que era o amor? Talvez uma neurose. “Se queres aprender a amar, esquece a tua alma.” (Manuel Bandeira)

Eu teria deixado muitas almas por aí, ah, as almas histericamente berrando canções de afugentar as almas.

“Os corpos se entendem, as almas não.” (ainda Manuel Bandeira.)

E meu corpo estava vazio. Se eu cria em Deus, qual então a causa da minha angústia? Viver é um paradoxo. Eu estava ali numa cadeira, numa mesa, num quarto/despensa escrevendo não sabia o quê como se isso resultasse alguma coisa.

Então a mocinha dizia ao pai consternado: “Minha vocação é pra prostituta.”

O mundo seria salvo, talvez, pelos insubmissos. Mas o que quer que eu fizesse seria uma submissão – ou ao corpo ou ao espírito. Seria preciso muita virtude para se conseguir um estado de completo, perfeito, sumo ateísmo ou teísmo.

“Deus é virtude.” (Quem teria dito?)

“Pensarei provisoriamente que a virtude é o que o indivíduo possa obter de melhor de si.” (Gide)

A criação artística é um ato de embriaguez. Eu procurava a fé, um cristianismo de vida. Problema da fé sustentada no amor? Crer mais importante que ser? Amor, comunhão, conciliação com Deus e os homens? Destino humano, desejo de permanência – a salvação do homem? Quando a volta do homem desiludido? Deus não existia para mim se eu não o aceitasse e não podia aceitá-lo enquanto não emergisse do mal. Haveria salvação para mim?

Eu continuaria fazendo o meu caminho nem que fosse por falta de alternativa.

Depois parece que me esqueci de tudo isso, continuei caminhando sem esperar por respostas. Deveria ser o início da maturidade.

José Carlos Mendes Brandão

José Carlos Brandão nasceu em Dois Córregos, SP, em 28 de janeiro de 1947. Mora em Bauru. Em 2025 publicou “Matéria e memória”, que reúne sua poesia de 1975 a 2025, 9 livros publicados, mais 3 inéditos. Publicou também 2 livros de crônicas. Escreveu um romance, que permanece inédito, apesar de ter ganhado o Prêmio Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte, em 2000. Tem uma dezena de contos premiados em concursos e publicados em antologias. Escreveu ainda microcontos.

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